Há alguns anos, quando eu era mais jovem e tinha mais tempo, eu costumava passar noites em claro em algum projeto geek ligado a informática.
Como eu nunca trabalhei com isso, sempre foi por pura diversão. Nem sempre terminava bem: Na maioria das vezes envolvia a instalação de Linux (que está fazendo 20 anos este ano, é meio doloroso lembrar), ou outro sistema operacional obscuro baseado em Unix que tinha saído em alguma revista.
Na época eu pensava: “puxa, que revolução. Um sistema operacional vendido a preço de revista, que eu posso instalar de graça na minha máquina”.
O que eu chamava de “máquina” era um PC X86 que tinha sido comprado com alguma versão irritante de windows, que tinha que ser mantida funcional, como parte do desafio noturno, pois também era usada para trabalho.
Muitos backups e dores de cabeça depois, horas a fio sem sono, e esta única condição tinha que ser obtida a partir da lenta restauração de um backup.
E tinha gente, como eu, que achava isso divertido. A maioria dos outros mortais, como a minha mulher, por exemplo, não entendia como um computador podia ser muitas vezes mais atraente que a cama, com tudo de bom que ela oferece (ainda bem que ela teve paciência, e essas noites geek ficaram mais raras ao longo dos anos).
Hoje, durante a instalação do Lion, fiquei com a impressão de que algo se perdeu. Como assim, não perdi dados? Como assim, não precisei recorrer a um backup? Como assim, meio dia já estava tudo ok, se o download foi disponibilizado às 10:00 da manhã?
Isso tudoé incrível, mas não deixa de me causar uma ponta de nostalgia. Gilberto Gil escreveu em fins de 1969: “Poetas, seresteiros, namorados, correi! É chegada a hora de escrever e cantar, talvez as derradeiras noites de luar”, para referir-se à chegada dos homens à lua. Senti algo que bem poderia ser descrito pelo mesmo mote.
O novo gato gigante da maçã é mesmo muito bonito. Suas novas funções são muito interessantes. A Apple, como sempre, sem medo de perder usuários em seu salto para o futuro, muda coisas que parecem banais, como a direção da rolagem de conteúdo, por exemplo, mas que exigem um enorme esforço de adaptação.
A Apple quer que o mac vire um iPadão.
Mas o que me deixa mais impressionado, é a segurança com que o processo foi conduzido. Então eu me lembrei do que dava errado nas minhas noitadas geek, e pensei o quanto estar certo deve ser solitário para Steve Jobs.
No final da noite, alguma incompatibilidade de hardware sempre criava um obstáculo intransponível entre eu e a máquina – um mapa do teclado inadequado, por exemplo – o que me fazia ir dormir para voltar ao problema renovado na noite seguinte. Isso é previsível, já que o Linux – e outros Unix populares que vieram na sua trilha, como o BSD Unix (que É o motor por baixo do capô do OS X Lion, como de todos os outros gatos da Apple) – foram projetados tendo em mente uma quantidade enorme de periféricos e CPUs. Aberto, democrático, e caótico.
Em nome dessa facilidade que vi hoje, e em benefício de pessoas que, de outro modo, jamais usariam um computador, a Apple decreta o fim do caos, acabando com a democracia e a abertura, e centralizando todo o poder nas mãos de um um déspota esclarecido.Deu tão certo que a recente e dolorosa luta de Jobs contra o câncer tem provocado dúvidas e incertezas a respeito de sua sucessão.
Esta é outra dificuldade com reinados áureos: eles terminam junto com o rei. Mas a Apple parece ter assimilado um modus operandi, derivado do funcionamento obssessivo, ordenado e disciplinado de Steve Jobs, que pode ir além de sua morte entregando sonhos às pessoas.
Mas, uma coisa é certa: vale a pena, ainda que seja pelo espaço de tempo da vida de um homem, ver algo funcionar tão bem quanto funciona um iPad, ou o novo gato gigante de Cupertino.
Vida Longa e Prosperidade a Steve Jobs e seu legado: eles me tiraram o prazer da incerteza das minhas noitadas geek, mas deram à minha sogra (que adquiriu meu iPad 01, ajudando-me a adquirir o 02) um computador que faz o que ela precisa que ele faça, sem tirar seu sono para isso.